Questão Q7321
Ver mais questõesEm 1580, um senhor de engenho em Pernambuco acordava antes do sol e ia até a moenda observar dezenas de africanos escravizados esmagando cana com força braçal. O caldo escorria para caldeirões de cobre aquecidos a lenha, o açúcar era embalado em caixas de madeira e carregado em carroças de boi até o porto de Recife, onde um navio levaria tudo para a Europa. Quase quinhentos anos depois, em 2024, um operador de colheitadeira em Ribeirão Preto, São Paulo, senta num cabine climatizada com GPS e monitora uma máquina que colhe oitenta toneladas de cana por hora. O caldo segue por esteiras automáticas e vira, ao mesmo tempo, açúcar, etanol para abastecer carros e bioeletricidade que ilumina cidades. A planta é a mesma — mas quase tudo ao redor mudou.

O que permaneceu, em grande parte, foi o modelo de produção em larga escala. No período colonial, a cana seguia o sistema chamado plantation: monocultura em latifúndios, produção voltada para exportação e trabalho escravo. Enormes propriedades eram dedicadas exclusivamente a um único cultivo, pertenciam a poucos donos poderosos e produziam para o mercado europeu, não para alimentar a população local. Hoje, o trabalho escravo foi abolido e máquinas substituíram boa parte da força humana, mas a estrutura de grandes propriedades dedicadas a um único produto para exportação ainda se repete em muitas regiões canavieiras. O Brasil produziu 713 milhões de toneladas de cana na safra 2023/24, e São Paulo sozinho responde por metade dessa produção — números que mostram o quanto a lógica da grande escala continua viva.
A diferença mais marcante entre o engenho e a usina moderna está no aproveitamento da planta. No passado, só interessava o açúcar. Hoje, o setor sucroenergético transforma a cana em três produtos: açúcar, etanol e bioeletricidade. O bagaço e a palha, que antes eram descartados, agora alimentam caldeiras que geram energia elétrica — o suficiente para abastecer as próprias usinas e ainda enviar o excedente para a rede. É como se a mesma cana fosse aproveitada três vezes. Mas se a tecnologia mudou tanto, por que a concentração de terras e certas desigualdades ligadas à história da cana continuam presentes no Brasil de hoje?
Compare o funcionamento do engenho colonial com o da usina moderna e explique, com suas palavras, o que mudou e o que permaneceu semelhante na forma como o Brasil produz cana-de-açúcar.