Questão Q10399
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O Rapto das Cebolinhas
(Maria Clara Machado)

(O cenário representa a horta do Coronel. São vistos três pezinhos de planta. Girassóis. À frente da horta, uma cerca bem baixinha. Um espantalho. Uma árvore. Um banco na frente da árvore. Uma casa de cachorro no proscênio à direita)
Primeira Cena
(É madrugada. Vê-se passar pela cena uma figura envolta numa capa preta, com um grande chapéu. - Os passos devem ser acompanhados do barulho de lixa raspando, reco-reco e pente de arame num tambor. Pausa. Começa a clarear, ouvem-se o galo cantar e passarinhos. O Coronel entra assobiando alegremente, carregando ancinho e regador. Entra na horta, para e grita)
CORONEL - Roubaram! Socorro! Socorro! Roubaram o pé de cebolinha do Coronel Felício. Roubaram! (Pausa) Quem terá sido? Quem teve coragem de roubar o pé da mais preciosa cebolinha que existe no Brasil?
[...]
CORONEL - Ah! Preciso descobrir o ladrão. Quem teria a coragem de fazer uma coisa destas? (Chamando) Lúcia, Maneco! Onde estão os meus netos? Maneco, anda cá, seu maroto. Lúcia, acorda, menina. O avô foi roubado!
(Entram Lúcia e Maneco, aflitos)
MANECO - Você chamou, vovô?
LÚCIA - O que é que aconteceu, que você está tão nervoso, hem, vovô?
CORONEL - Vocês não podem imaginar o que aconteceu?
MANECO - De ruim ou de bom?
CORONEL - De péssimo, ora!
MANECO - Aposto que o seu reumatismo doeu a noite inteira.
(Coronel diz que não com a cabeça)
LÚCIA - Morreu a vaca leiteira?
CORONEL - (quase gemendo) Nada disso, nada disso.
MANECO - Então o que foi?
CORONEL - Ai... Ai... Ai...
MANECO - O pé de tomate secou?
CORONEL - Não.
LÚCIA - O tacho de melado quebrou?
CORONEL - Não.
MANECO - O bezerro preto desmamou?
CORONEL - Não.
LÚCIA - E a vaca malhada desmandou...
CORONEL - Não.
(O diálogo é bem rápido, e as crianças quase não deixam o Coronel dizer não)
CORONEL - Nada disso, nada disso; antes fosse. Olhem lá dentro.
(Aponta para dentro da cerca. Os dois meninos entram no cercado)
MANECO - Oh!
LÚCIA - Que horror! Pobre vovô! (Para a platéia) Arrancaram o pé de cebolinha.
(Para o avô) Quem foi?
MANECO - Quem foi o ladrão, hem, vovô?
CORONEL - Não sei ainda. Temos que descobrir. Ainda ficaram dois pés. Os últimos.
(Chorando) Ai, meu Deus! Estou tão abafado que nem posso pensar direito. Dois anos criando essas cebolinhas, e agora...
LÚCIA - Fique mais calmo, vovô. Não se amole tanto. Mandaremos vir outras mudas iguais e elas vão crescer que nem capim.
CORONEL - (indignado) Lúcia, minha neta, não torne a dizer esse absurdo. Você sabe muito bem que estas cebolinhas são diferentes. São cebolinhas da Índia. Quem toma chá dessas cebolinhas tem vida longa e alegria! E estas são as últimas que existem no Brasil...
MANECO - (interrompendo) Fale mais baixo, vovô. Você quer que outros ladrões apareçam para roubar as duas que sobraram?
CORONEL - É mesmo, meu filho. Todo o cuidado agora é pouco. Irei até a cidade contratar um detetive para descobrir o ladrão. Prestem bem atenção no pessoal daqui. Todo mundo é suspeito. Vou me vestir e já volto.
(Sai)
[...]
Adaptado de: MACHADO, Maria Clara. O Rapto das Cebolinhas. Disponível em: Escola da Leitura (https://escoladaleitura.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/04/o-rapto-das-cebolinhas-maria-clara-machado1.pdf).
a) No início da peça, o autor apresenta uma figura misteriosa. Quais características dessa figura contribuem para criar um clima de mistério?
b) Por que o roubo das cebolinhas preocupou muito o Coronel?