Questão Q10319

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Ano: 2026Matéria: Língua PortuguesaAssunto: Discursivas Compreensão Interpretação Geral

Leia o texto e responda à questão abaixo.

Machado de Assis: O Mestre das Entrelinhas

E se o maior escritor brasileiro de todos os tempos usasse figuras de linguagem para dizer o que ninguém tinha coragem de falar abertamente? Joaquim Maria Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839 no Rio de Janeiro, fez exatamente isso durante toda sua carreira.

Machado de Assis dominava especialmente a ironia, uma figura de linguagem que diz o contrário do que realmente se pensa. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador conta que "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis". A frase parece um elogio, mas funciona como uma confissão disfarçada: quando o dinheiro acabou, o amor também acabou — e os quinze meses duraram exatamente onze contos de réis, nem mais, nem menos. Machado não precisou escrever "ela só me amava pelo dinheiro". Colocou tempo e dinheiro na mesma frase, separados por um simples "e", e deixou o leitor fazer a conta.

O escritor também usava a metonímia, substituindo uma palavra por outra com a qual ela tem relação direta. Em O Alienista, quando a população se revolta contra o médico Simão Bacamarte, o narrador descreve a multidão como "trezentas cabeças rutilantes de civismo". Ali, "cabeças" não são partes do corpo: são as pessoas inteiras. A parte substitui o todo, num recurso que comprime a imagem e a torna muito mais viva.

A metáfora também é uma marca registrada de Machado. No mesmo Memórias Póstumas, ele descreve o nascimento do protagonista com a frase "a árvore dos Cubas brotou uma graciosa flor". O bebê não é literalmente uma flor, mas a comparação direta — sem "como" ou "feito" — transfere para ele a ideia de algo belo, delicado e recém-surgido no mundo. É uma imagem que qualquer leitor visualiza em segundos.

Ainda em O Alienista, aparece uma metáfora poderosa sobre a loucura: o médico Simão Bacamarte afirma que "a loucura era até agora uma ilha perdida no oceano da razão". Loucura e razão não são, literalmente, ilha e oceano — mas a imagem funciona como um mapa mental perfeito: a loucura parece pequena e isolada até que alguém começa a enxergá-la em todo lugar.

Sua origem humilde tornou sua literatura ainda mais revolucionária. Filho de Francisco José de Assis, um pintor pobre cujo pai havia sido escravo liberto, e de Maria Leopoldina, uma lavadeira açoriana, Machado cresceu sem dinheiro e sem acesso fácil à educação formal. Autodidata, aprendeu lendo tudo que encontrava pela frente. Circulando depois nos salões da elite carioca como funcionário público, ele observava de perto as contradições daquela sociedade — e transformava o que via em literatura.

Quando os leitores ricos terminavam seus contos sorrindo, pensando que ele estava do lado deles, na verdade tinham sido criticados o tempo todo. Machado de Assis provou que as figuras de linguagem não servem apenas para embelezar textos, mas podem ser armas poderosas de transformação social.

a) De acordo com o texto, como era a origem de Machado de Assis e como ele conseguiu se tornar escritor mesmo sem ter acesso fácil à educação?

b) O que Machado de Assis fazia com as figuras de linguagem em seus livros?